Sobre Nós

Professor Associado de Língua Latina do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Ex-professor da Universidade de Brasília e da Universidade Estadual Paulista. Bacharel em Letras e Doutor em Ciências Humanas pela Universidade de São Paulo. Membro da Academia Brasileira de Filologia, de Etnolinguistica: Línguas Indígenas da América do Sul e do Centro de Estudos Interdisciplinares da Antiguidade (UFF). Sócio da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Autor do "Repertório brasileiro de língua e literatura latina (1830-1996)" (Cotia, Íbis, 2006, 231 p.).

Currículo e publicações disponibilizadas na Internet

"Dicionário de tupi antigo": nota de Eduardo Tuffani a Eduardo de Almeida Navarro

"Dicionário de tupi antigo": nota de Eduardo Tuffani à "defesa" de Eduardo de Almeida Navarro (III) [Orkut]

Uma tese de tupi antigo I [Versão original]

Currículo e publicações disponibilizadas na Internet

Currículo

http://lattes.cnpq.br/8132378278183126

EDUARDO TUFFANI MONTEIRO (20-9-1959) [PARA O DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA]

EDUARDO TUFFANI MONTEIRO (20-9-1959) [PARA O DICIONÁRIO BIOBIBLIOGRÁFICO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA].pdf (12,3 kB)

"OS ESTUDOS LATINOS NO BRASIL" E FILOSOFIA E TEOLOGIA EM SÃO PAULO EM MEADOS DO GOVERNO DO MORGADO DE MATEUS (1771)

OS ESTUDOS LATINOS NO BRASIL E FILOSOFIA E TEOLOGIA EM SÃO PAULO EM MEADOS DO GOVERNO DO MORGADO DE MATEUS (1771).pdf (117,5 kB)

NOTAS DE UMA AULA: O "CARPE DIEM" DE HORÁCIO

NOTAS DE UMA AULA: O "CARPE DIEM" DE HORÁCIO.pdf (307 kB)

"DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO": NOTA DE EDUARDO TUFFANI A EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO

"DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO": NOTA DE EDUARDO TUFFANI A EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO.pdf (304,6 kB)

AMOSTRAS DO SUPLEMENTO AO REPERTÓRIO BRASILEIRO DE LÍNGUA E LITERATURA LATINA (1997-2006): SANTO AGOSTINHO (I) [VERSÃO CORRIGIDA]

AMOSTRAS DO SUPLEMENTO AO REPERTÓRIO BRASILEIRO DE LÍNGUA E LITERATURA LATINA (1997-2006): SANTO AGOSTINHO (I) [VERSÃO CORRIGIDA].pdf (110,3 kB)

UMA TESE DE TUPI ANTIGO I [DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO DE EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO]

UMA TESE DE TUPI ANTIGO I [DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO DE EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO].pdf

NOTE POUR LES CENT ANS DE L’ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR EN PHILOSOPHIE AU BRÉSIL (1908-2008) [VERSÃO DIGITAL FRANCESA]

NOTE POUR LES CENT ANS DE L'ENSEIGNEMENT SUPÉRIEUR EN PHILOSOPHIE AU BRÉSIL (1908-2008) [VERSÃO DIGITAL FRANCESA].pdf (223,5 kB)

DE MAGISTRIS COLENDIS (O RESPEITO AOS MESTRES): DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA

DE MAGISTRIS COLENDIS (O RESPEITO AOS MESTRES) DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOLOGIA.pdf (63 kB)

REVISÃO DE UM COMPÊNDIO DE TUPI ANTIGO [CURSO DE TUPI ANTIGO DE A. LEMOS BARBOSA]

REVISÃO DE UM COMPÊNDIO DE TUPI ANTIGO [CURSO DE TUPI ANTIGO DE A. LEMOS BARBOSA].pdf

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 “DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO”: NOTA DE EDUARDO TUFFANI A EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO (PDF ACIMA)

 

Eduardo Tuffani (UFF, ABRAFIL)

etuffani@vm.uff.br

 

 

No seu último trabalho, Dicionário de tupi antigo, Eduardo Navarro escreveu uma “Breve história dos estudos de tupi antigo no Brasil: um triste balanço no século XX” (2013, p. xvii-xix). Por que “triste”? Foi a partir dos anos 30 que os estudos tupis passaram a ter mais seriedade e profundidade. Nessa “Breve história”, nem uma única menção a Batista Caetano de Almeida Nogueira, Rodolfo Garcia, Arthur Neiva, Rosário Farâni Mansur Guérios, Maria de Lourdes de Paula Martins, Jürn Philipson e Armando Cardoso. O verdadeiro estudioso deve ter serenidade para se posicionar e questionar os trabalhos dos outros, de ontem e de hoje, presentes e ausentes. Estou convencido de que todos temos a aprender uns com os outros, mas nem sempre isso é possível, como no caso de Navarro, de quem me afastei antes da publicação do Método moderno de tupi antigo (1998).

Maior indianista brasileiro do século XIX, grande especialista do guarani, Batista Caetano anotou Do princípio e origem dos índios do Brasil de Fernão Cardim e iniciou o trabalho de tradução de O diálogo de Jean de Léry e da obra poética de José de Anchieta. Historiador e indianista, hoje menos citado, Rodolfo Garcia anotou História da missão dos padres capuchinhos... de Claude d’Abbeville e Do clima e terra do Brasil e Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica de Fernão Cardim. Rodolfo Garcia sabia que o portuguesismo para “cruz”, no tupi antigo, é kurusá, kurusu é a forma para o guarani (D’ABBEVILLE, 1975 [1614], p. 248), o que Navarro levou anos a aprender (DIA, 4 fev. 2000, p. 1). Kurusu vem em obra de Antônio Lemos Barbosa (1956, p. 385), a única que conheço de tupi antigo segundo Navarro (2013, p. xix). Tanto Batista Caetano como Rodolfo Garcia tiveram seus trabalhos prejudicados pois não se beneficiaram do anônimo Vocabulário na língua brasílica (1952-1953 [1938]). Arthur Neiva afirmava não ser tupinólogo, mas foi um grande conhecedor de brasileirismos e tupinismos. Pelo que se lê em Estudos da lingua nacional (1940), podem-se questionar abonação, entrada e topônimos do Dicionário de tupi antigo: “mbyryki-oka – reduto de buriquis (Staden, Viagem, 55)” (2013, p. 358) e “takura” (ibid., p. 459). A primeira, que se repete na “Relação de topônimos e antropônimos...” do Dicionário, é feita com base em um autor setecentista (“Bertioga”, ibid., p. 547). Arthur Neiva escreveu o mais profundo estudo sobre a etimologia de “Bertioga”, “Considerações sobre o toponimo Bertioga e o insecto que lhe deu origem” (op. cit., p. 112-141): m(b)arigûioka “paradeiro de maruins”, de marigûi + oka, “Beriguioca” > “Beriquioca” > “*Berquioca” > “*Bertioca” > “Bertioga” (ibid., p. 116, 117, 120, 133, 139); marigûi também é proposto para “Birigui” e “Barigui” (ibid., p. 117), aquele com etimologia a questionar (NAVARRO, 2013, p. 547). A respeito de “takura”, Arthur Neiva considera: “O vocabulo com que os indios designavam os gafanhotos e que apparece em Gabriel Soares escripto tacura, talvez erro de copia, existe em outros Estados sob o nome de tucura.” (Op. cit., p. 254.)

Embora tenha escrito pouco sobre tupi antigo, Rosário Farâni Mansur Guérios, antigo professor de potuguês da Universidade Federal do Paraná, interessava-se por línguas indígenas e, a respeito de tupi e guarani, não pode ser ignorado pois é de sua autoria “Novos rumos da tupinologia” (ago. 1935). Professor da então cadeira de Etnografia e Língua Tupi-Guarani da Universidade de São Paulo, Jürn Philipson também não escreveu muito, mas seu nome merece registro pois atuou de forma séria e dedicada, tendo reconhecido o mérito de Batista Caetano, levadas em conta as condições em que esse trabalhou.

Na “Breve história”, Navarro afirma: “Contudo, excetuando-se as obras e os artigos de Lemos Barbosa, da PUC do Rio de Janeiro, [de] Frederico Edelweiss, da Faculdade de Filosofia da [Universidade da] Bahia, e de Aryon Rodrigues, da Universidade [Estadual] de Campinas [e da Universidade de Brasília], quase nada podemos aproveitar do que escreveram os tupinistas do século XX sobre o tupi antigo.” (2013, p. xviii.) Se é o que pensa, por que o padre Armando Cardoso escreveu, acredito que a convite, uma apresentação para a primeira edição do Método moderno (1998, p. iv)? É certo que Armando Cardoso foi mais um tradutor, mas escreveu introduções, publicou textos inéditos de Anchieta, etc. Se Navarro cita Plínio Ayrosa  e Carlos Drumond por terem publicado textos tupis (2013, p. xviii-xix), por que não dá o mesmo tratamento a Armando Cardoso? Inexplicável é o fato de Navarro não mencionar Maria de Lourdes de Paula Martins. A antiga professora da USP, da mesma cadeira que Jürn Philipson, depois pesquisadora do Museu Paulista, escreveu resenhas, artigos, publicou e traduziu textos tupis. As suas edições de textos tupis são das mais cuidadas. Se Paula Martins e Armando Cardoso cometeram erros em suas traduções, Navarro também deu provas disso, entre os casos mais graves: Auto de São Lourenço de Anchieta, 537, 555; Carta de Diogo Pinheiro Camarão a Pedro Poti (passim). Esses foram quase todos corrigidos na terceira edição do Método moderno (2005).

Algo deve ser dito ao arrolar esses estudiosos, como cada um tem a sua importância, deve-se reconhecer que dois deles sobressaíram pela perspicácia no trato com o tupi antigo ou tupinambá: Frederico Edelweiss e Aryon Dall’Igna Rodrigues, este enveredou pela linguística, aquele se dedicou a um trabalho de cunho filológico. Isso não siginifica que estivesse um ou esteja o outro isentos do erro e da correção. Para tanto, basta ler e acompanhar as trajetórias desses dois tupinólogos. Talvez isso tenha sido difícil para Frederico Edelweiss pois ele não era comedido nas suas palavras. No caso de Aryon Rodrigues, como linguista que é, todas as línguas indígenas têm a sua importância, como de fato é a verdade. A pesquisa de outras línguas da família tupi-guarani pode beneficiar o estudo do tupi antigo. O náuatle, o quéchua, o guarani e o tupi antigo se destacam pois tiveram grande importância na América colonial e pré-colombiana. Dessas quatro línguas, o tupi antigo foi a menos estudada no período colonial, época de sua documentação, o que teve consequência quando se buscou retomar o seu estudo. Apesar da indiscutível importância do tupi antigo, não é adequado chamá-lo de língua clássica. Se fosse língua clássica, não teríamos na cultura brasileira “inúbia”, “Moacir”, “piaga”, “Pindorama”, etc. Lemos Barbosa foi o terceiro grande especialista do tupi antigo, tendo deixado uma obra que, mesmo sendo uma fonte secundária, tornou-se uma referência nos estudos tupis, ainda que envelhecida e desprovida de análise linguística moderna. Escrevo sobre Aryon Rodrigues em razão de sua relevância para o estudo do tupi antigo. Quanto aos demais, citados ou não por Navarro, como não sei o que vão fazer, se é que o farão, se é que vale a pena, restrinjo-me a Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (NAVARRO, 2013, p. xix). Esta professora pertenceu à área de Línguas Indígenas do Brasil da USP, mas tinha ao seu cargo disciplinas de toponímia, tendo-se dedicado a isso ao longo de sua carreira. Se assumiu disciplinas de tupi antigo, houve razão de força maior, pois não era o seu campo de atuação e pesquisa.

A respeito de minha pessoa, Eduardo Tuffani, Navarro reitera que o que sei de tupi antigo se limita ao Curso de tupi antigo de Lemos Barbosa e que não tenho capacidade para lidar com fontes primárias (ibid., p. xix). Como pode fazer tal afirmação se não tem contato comigo desde pelo menos 1998? Eu achava prematura a publicação do Método moderno na época, o fato, porém, é que o livro foi a prelo, tornou-se uma realidade. Interessado que sou pela língua, li o livro várias vezes nas suas duas versões impressas (1998; 2005). Fiz isso pois se é por essa obra que também se passou a aprender a língua não podia deixar de conhecê-la com profundidade. Será que não aprendi nada com essas várias releituras? Como eu previa, a obra teve de ser refundida, tantas foram as correções e alterações. Quando ministrei cursos de extensão de tupi antigo na Universidade Estadual Paulista (1992-1993), usei o Curso de Lemos Barbosa, corrigido com uma errata feita por esse autor (1970, p. 224-228). Como professor concursado para a área de Línguas Indígenas do Brasil, Navarro elaborou uma apostila com base no Curso de tupi antigo, mas não fazendo uso daquela errata de Lemos Barbosa, o que se evidencia até na primeira edição do Método moderno, em que falha por não usar a errata (1998, p. 511) e até por reproduzir lapsos de Lemos Barbosa (1998, p. 334, 571). Nos meus cursos de extensão de tupi antigo, traduzi com meus alunos, no fim de cada período, alguns dos Poemas brasílicos de Cristóvão Valente, valendo lembrar que não havia ainda tradução a contento dos Poemas de Valente. Não vou arrolar aqui o que li sobre tupi antigo, dei esses dois depoimentos, porém, porque dizem respeito a atividades públicas. O que deve ser dito é que cheguei a corrigir a apostila de Navarro, amparado eu no Vocabulário na língua brasílica.

Penso que já escrevi muito sobre falhas em obras de Navarro. Na crítica que fiz à sua tese de livre-docência, primeira versão disponível do Dicionário de tupi antigo (TUFFANI, jan./abr. 2012, p. 146), cometo uma falha grave, na verdade um erro “bobo”, pois oypyra vem na Arte de Anchieta (1990 [1595], p. 44 v), como respondi a Navarro em 21 de setembro de 2013, antes do lançamento do Dicionário de tupi antigo, pois fui obrigado a lhe escrever diante de mensagem impositiva. Navarro procurou me desqualificar por causa desse erro de forma rude e grosseira com “Comentários à recensão crítica do Prof. Eduardo Tuffani” (maio/ago. 2012). Posso afirmar que quase tudo o que escrevi procede e que a defesa de Navarro praticamente não tem sustentação. Eu fiz uma amostragem dos erros de conteúdo, tendo mostrado também falhas de outra natureza. Acerca de ypyra, não vou escrever, porque, no Dicionário de tupi antigo, há como chegar a essa termo. Em mensagem encaminhada a mim, tendo exigido que eu retirasse da Internet as notas anteriores, foi o que eu entendi do seu raciocício, algo que eu poderia até fazer depois desta última, Navarro escreveu: “Os defeitos que o senhor apontou em meu dicionário eu já os corrigi. Sendo meu inimigo, o senhor me ajudou mais que um amigo...” (17 de setembro de 2013.) Não é isso que Navarro afirma nos seus “Comentários” (maio/ago. 2012, p. 160), em que sou tratado como tolo, ignorante, mentiroso, etc. A minha forma de escrever também é criticada (ibid., p. 172). Navarro pensa ter estilo e, de fato, tem, pedante, pernóstico e, por vezes, incorreto. Não sou seu amigo nem inimigo. Fiquei indignado ao ler partes de sua tese, tendo-me lembrado dos que o precederam. Como pode alguém, durante longos anos, ensinar que o radical de vermelho é pyrang, dos seus erros o menos defensável (2005, p. 41)? O Dicionário de tupi antigo ainda carece de revisão cuidadosa pois há falhas, lacunas e erros de transcrição. Para ser um dicionário da língua indígena, é preciso eliminar os tupinismos, pois têm amparo em fontes subsidiárias, são palavras de origem tupi no português e até em outra língua. Os antropônimos também ajudam a dar corpo à obra (“quase oito mil palavras-entradas”, 2013, p. xii), mas é inadmissível que haja verbete para entidade mitológica de questionável criação colonial como se fosse da cultura dos antigos tupis ou tupinambás. Aproveitando o tratamento da cultura indígena, uma boa leitura é o artigo “O mito do ‘mito da terra sem mal’” de Cristina Pompa (1998). Pretendo continuar a ler sobre tupi antigo, mas não vou tomar conhecimento se o Método moderno e o Dicionário de tupi antigo tiverem outras edições. Depois de vinte anos de magistério, professor titular, o coroamento da carreira é ensinar que potigûara significa “comedor de camarão”? (NAVARRO, 2013, p. 405.) Com efeito, é preciso conhecer as fontes para o estudo do tupi antigo: “[Anthony] Knivet inicia a sua descrição sistemática dos selvagens, que pessoalmente conheceu, pelos Potiguara (Petivares no texto). Os Potiguara usam tatuagens no corpo e pedras verdes nos lábios; quando viajam pelo sertão, mastigão tabaco [petỹgûara].” (Apud PINTO, 1958, p. 251.) Para a etimologia discutível desse etnônimo, as fontes mais antigas apontam para “mascadores de fumo”. Os estudos brasileiros trazem consigo alguns problemas. Apesar do muito que se fez no século XX, os estudos tupis talvez sejam o caso mais evidente. Embora carregue na tinta de forma parcial e até desinformada, alguma razão Luiz de Castro Faria tem ao criticar a tupinologia em “Egon Schaden (1913-1991)” (1991, p. 244-246). Tenho vontade, às vezes, de retomar o grego, língua clássica, pois sei que teria outras referências, para citar só da escola francesa, Anatole Bailly (dicionarista), Pierre Chantraine (etimologista), ou de me dedicar ao guarani antigo, ao guarani paraguaio ou ao tupi moderno da segunda metade do século XIX ou das primeiras décadas do século XX, período documentado da língua geral que me interessa particularmente.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

D’ABBEVILLE, Claude. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e terras circunvizinhas. Tradução de Sérgio Milliet. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, Universidade de São Paulo, 1975 [1614].

 

ANCHIETA, Joseph de. Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil. Edição fac-similar. São Paulo: Loyola, 1990 [1595].

 

BARBOSA, A. Lemos. Curso de tupi antigo: gramática, exercícios, textos. Rio: São José, 1956.

 

______. Pequeno vocabulário português-tupi. Rio de Janeiro: São José, 1970.

 

DIA de índio. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, B, 4 fev. 2000, p. 1.

 

FARIA, Luiz de Castro. Egon Schaden (1913-1991). Anuário Antropológico, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, p. 241-255, 1991.

 

[GUÉRIOS], Rosário Farâni Mansur. Novos rumos da tupinologia. Revista do Círculo de Estudos “Bandeirantes”, Curitiba, v. 1, n. 2, p. 172-185, ago. 1935.

 

NAVARRO, Eduardo de Almeida. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. Petrópolis: Vozes, 1998 [3. ed. rev. aperf. São Paulo: Global, 2005].

 

______. Comentários à recensão crítica do Prof. Eduardo Tuffani. Revista Philologus, Rio de Janeiro, Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos, ano 18, n. 53, p. 159-173, maio/ago. 2012.

 

______. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.

 

NEIVA, Arthur. Estudos da língua nacional. São Paulo: Nacional, 1940.

 

PINTO, Estêvão. Muxarabis & balcões e outros ensaios. São Paulo: Nacional, 1958.

 

POMPA, Cristina. O mito do ‘mito da terra sem mal’. Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, v. 29, n. 1/2, p. 44-72, 1998.

 

TUFFANI, Eduardo. Uma tese de tupi antigo I. Revista Philologus, Rio de Janeiro, Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos, ano 18, n. 52, p. 134-162, jan./abr. 2012.

 

VOCABULÁRIO na língua brasílica. 2. ed. rev. e confrontada com o ms. fg., 3144 da Bibl. Nacional de Lisboa por Carlos Drumond. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1952-1953 [1938], 2 v.

 

 

"DICIONÁRIO DE TUPI ANTIGO": NOTA DE EDUARDO TUFFANI À "DEFESA" DE EDUARDO DE ALMEIDA NAVARRO (III)

 

Eduardo Tuffani

 

(Orkut)

(Escrita no calor da hora, esta nota foi ligeiramente corrigida)

 

Na sua "defesa", verdadeira baixaria, publicada com modificações, Navarro me tratou como um ignorante. Em meados do ano passado, fui convidado por ele para fazer parte do corpo editorial de uma revista da USP. O que ele pensava de mim na ocasião? Na minha crítica, há uma falha, falha essa apontada por ele antes da publicação, quando o meu texto foi divulgado: o resto são bravatas de quem não admite erros e fraquezas.* Não corrigi o passo pois dei o trabalho como finalizado. Por causa desse erro, uma nota equivocada de um tradutor, Navarro considerou que eu não tinha experiência nenhuma com fontes primárias para o estudo do tupi antigo. Se tal erro é o bastante para isso, vale lembrar que Navarro cometeu inúmeros erros: é só confrontar as duas versões do "Método 'moderno'". Além disso, errou em traduções, em etimologias... Se eu sou um ignorante, o que ele é? Fui tão honesto que não modifiquei o meu trabalho. Não vejo Navarro há muitos anos. Naquela época, me apresentava como "tupinista emérito": será que estava sendo honesto? Se disser que mudou de opinião a meu respeito, por que me chamou para a revista, solicitando de minha parte trabalho para publicação? Só há um grande tupinólogo vivo, e não é Navarro. Foi graças a ele que Navarro teve coragem de lançar o seu "Método", elaborado com base no "Curso" de Lemos Barbosa, obra de referência, mas envelhecida e desprovida de análise linguística moderna. Hoje Navarro diz que o seu Mestre só conhece bem as gramáticas e o vocabulário coloniais! Parece que só ele é que sabe lidar com as fontes primárias. No seu "Método", porém, há muito a corrigir por tê-las trabalhado de forma equivocada. No século XX, entre os tupinólogos, os maiores foram Frederico Edelweiss, Antônio Lemos Barbosa e Aryon Rodrigues. Os seus trabalhos estão à disposição para serem lidos. Numa dúvida maior, deve-se recorrer a eles. É o que faço. Vou recorrer a Navarro que começou ensinando "aõa", depois "aûã", em seguida "ãûa", quem sabe agora "aûã" de novo? Pelo que eu sei, desde os anos sessenta, a forma reconstituída é "aûã". Fui tão agredido, até xingado por e-mail, que acho que posso dizer isto: algumas pessoas me disseram que "não se gasta boa vela com mau defunto". É a última postagem sobre o assunto pois tudo isso é muito desagradável. Quando falta a educação, é melhor deixar falar sozinho quem apela para o xingamento.

 

* Navarro desorientou o leitor ao ter afirmado que, em vão, procurei um "verbo" no seu "Dicionário", quando, na verdade, dei por falta de um verbete para "ypyra". As gramáticas coloniais dão "pyra" para "parte próxima", mas Edelweiss e Lemos Barbosa chegaram a "ypyra" ou "pyra" e, para tanto, tiveram seus motivos. Se Navarro tivesse analisado melhor o material coletado para o seu "Dicionário", teria chegado às mesmas conclusões desses dois grandes tupinólogos, autores de trabalhos concebidos de forma séria e honesta. Na maior parte dos pontos, Navarro se defendeu de maneira tortuosa: basta confrontar as citações e as referências. Deve ser difícil para esse professor de tupi admitir o erro, mas é errando que se aprende. Ele interpretou "petymamanymbyra", o "charuto", literalmente "tabaco enrolado", por "fumaça que se inala ao se fumar", influenciado pela entrada do verbete do "Vocabulário" jesuítico "fumaça que se bebe", verbete em que estão "tabaco" e "charuto".

 

 

Uma tese de Tupí Antigo I [Versão original]

 

Resenha de Navarro, Eduardo de Almeida. 2006. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Universidade de São Paulo. cxi + 436 pp. Tese de livre-docência.

 

Esta resenha trata de uma tese que consiste num Dicionário de tupi antigo (ou Tupinambá), de Eduardo Navarro (de 2006 pela USP). Considerei relevante escrever o texto pois, em se falando de Tupí Antigo, permanecem questões a serem esclarecidas já que a tupinologia, durante muito tempo, não foi norteada pelo conhecimento científico.

 

por Eduardo Tuffani[1]

 

A tupinologia só assumiu um caráter científico a partir dos anos 30 do século XX. Foi então que alguns estudiosos passaram a se destacar pelas suas contribuições nesse ramo do conhecimento. Não vou aqui arrolar esses pesquisadores, mas não posso deixar de mencionar, num primeiro momento, os professores Frederico Edelweiss e Aryon Dall’Igna Rodrigues, este último entre nós em plena atividade. Nas últimas décadas, o Tupí Antigo ou Tupinambá não foi tão estudado como até os anos 70 do século passado. É por essa razão que a oportunidade de discorrer sobre um trabalho, uma tese de Tupí Antigo, requer mais tempo no meio acadêmico.

Em primeiro lugar, deve-se esclarecer sobre a natureza do trabalho a ser tratado: é a tese de livre-docência defendida por Navarro na Universidade de São Paulo (2006). Isto deve ficar claro pois Navarro mantém há vários anos, em seu Currículo Lattes, esse trabalho como livro publicado,[2] o que até o início da redação deste texto, 31 de janeiro de 2011, não se justifica uma vez que, até esta data, o livro não foi publicado.[3] Compreendo que Navarro queira divulgar o seu trabalho e que deva fazê-lo, mas não é recomendável dar como publicado um livro que ainda não foi posto à disposição do público. Esse livro pode vir a ser publicado durante a feitura e a publicação deste texto, mas é fato consumado que permaneceu durante anos equivocadamente no Currículo de Navarro.

Conheci Navarro há muitos anos. É um homem culto, inteligente, cultor do vernáculo e de outros idiomas, tendo um mérito que ninguém lhe tira: exemplo da autoeducação, estudou muito o Tupí Antigo pelo manual do Pe. Antônio Lemos Barbosa (1956), estudou a ponto de traduzir de forma satisfatória textos quinhentistas e seiscentistas do Tupí Antigo ou Tupinambá. Para bem desempenhar suas atividades, no entanto, seria bom que Navarro estudasse mais a fundo e desse ao seu trabalho um cunho mais científico. Isto vai ficar mais claro ao longo desta resenha de tese acadêmica. Como exemplo do que foi afirmado, informo que Navarro alterou o título de sua tese de doutorado após a defesa do trabalho, o que é inusitado (1995 a e b). Se não estou equivocado, a alteração foi feita por ocasião do quarto centenário da morte de José de Anchieta. Todos aprendemos errando. Muitos de nós fizemos erratas para os nossos primeiros trabalhos. Navarro, porém, toma atitudes que causam estranheza. Sobre Lemos Barbosa e seu Curso de tupi antigo, afirmou: “Omitiu, ademais, de sua obra, textos fundamentais para o estudo dessa língua, como os de Léry [...]” (1998: xi). Isto não é verdade pois Lemos Barbosa usou e citou Jean de Léry direta e indiretamente (1956: 74, 96, 97, 105, 362 e 446). Mais exemplos serão dados ao longo desta resenha quando forem pertinentes.

A tese é constituída pelo “Dicionário de tupi antigo” (436 pp.) e por um longo texto com “Introdução”, desenvolvimento em vários tópicos, “Conclusões” e “Bibliografia” (cxi pp.). A exemplo do Método moderno de tupi antigo, são numerosas as incorreções, e vale lembrar que o MMTA está na sua terceira edição (2005). Um exame profundo e exaustivo da tese demandaria um tempo considerável, tempo de que não disponho no momento. Assim sendo, intitulei o texto “Uma tese de Tupí Antigo I”, deixando para outra ocasião o exame do dicionário propriamente dito, que aqui será tratado nos seus pontos principais. Também seria interessante que um especialista fizesse uma crítica serena e construtiva para que se reelaborasse o “Dicionário” à luz da filologia e da linguística.

Como são vários os pontos a serem tratados nas cxi pp., decidi levantá-los  seguindo o texto desde o seu início. Logo na primeira página,[4] folha de rosto, chama a atenção o subtítulo da tese “a língua indígena clássica do Brasil”. Na p. vi, Navarro compara o Tupí Antigo com o Náuatle, o Quéchua e o Guaraní Antigo. Por razões culturais e históricas, a comparação até se entende, mas o Tupí Antigo não foi tão estudado como esses três idiomas, muito menos se manteve como língua viva por largo tempo após a colonização. O Tupí Antigo persistiu com mais evidência em São Vicente e no Maranhão. A língua falada, porém, logo evoluiu para a Língua Geral, ou melhor, línguas gerais, no sul e no norte da Colônia. No século XVIII, o Tupí Antigo caminhava para uma língua morta, e o seu aprendizado estava comprometido, chegando a ser língua quase intraduzível no século XIX.

O “Índice” que vai da p. iii à p. v deve seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, sobretudo na numeração das seções primárias, secundárias, terciárias, etc. (1978 [1964]: 31-32). Pelas normas da ABNT, não se usa “índice” por “sumário”, como faz Navarro (1978 [1964]: 43).

Na “Introdução”, p. vi, Navarro vincula o Tupí Antigo ao Romantismo e ao Modernismo. Com efeito, houve tentativa nesse sentido, mas o Tupí Antigo só foi “decifrado” a partir dos anos 30 do século XX . Os escritores e os estudiosos anteriores, em sua quase totalidade, confundiam o Tupí Antigo com o Guaraní Antigo e sobretudo com o Nheengatú ou Tupí Moderno. O Tupí Antigo foi “ressuscitado” porque era letra morta, seus textos eram quase incompreensíveis (ver nota 19 deste texto). Na mesma página, Navarro afirma que o Tupí Antigo “é a língua indígena brasileira mais bem conhecida”. A língua que tem esse status é o Guaraní Antigo, que também foi uma língua indígena brasileira. O Guaraní Antigo se beneficiou de uma ortografia mais precisa e foi mais bem descrito tanto em gramáticas quanto em dicionários.

Nas pp. vii e viii, Navarro arrola dicionários de Tupí Antigo, mas parece ignorar o de Moacyr Ribeiro de Carvalho (1987), o que causa espécie pois, apesar de suas limitações, é superior a alguns citados nessa tese que é também um dicionário. Tal falta não se justifica num trabalho dessa natureza.

Em “Os estudos de tupi antigo e a crítica estruturalista”, p. ix, Navarro cita o Prof. Mansur Guérios à frente da cadeira de etnografia e língua tupi da Universidade do Paraná. Na p. xiii, diz que tal cadeira se extinguiu nos anos 90. Segundo comunicação pessoal feita pelo Prof. Aryon Dall’Igna Rodrigues, paranaense, discípulo de Rosário Farâni Mansur Guérios, tal cadeira nunca existiu na atual Universidade Federal do Paraná.

Na p. xi, Navarro alude ao início do curso de tupi no Colégio da Bahia em 1556, cujo primeiro professor teria sido Luís da Grã. O primeiro professor foi Antônio Rodrigues (Edelweiss 1969 a: 74), e, nessa ocasião, Luís da Grã se encontrava na capitania de São Vicente (Cardoso 1992: 26-27).

Na p. xiii, Navarro diz: “Mesmo Aryon Rodrigues faz extrapolações que não encontram amparo nos autores quinhentistas e seiscentistas.” Se tomarmos os trabalhos dos tupinólogos que se destacaram no século XX, veremos que vários deles errraram e se corrigiram: é assim que a ciência progride. Gostaria que Navarro expusesse as extrapolações do Prof. Rodrigues porque as de Navarro são suficientes para uma quarta edição do Método moderno de tupi antigo. A afirmação de Navarro causa surpresa pois foi o Prof. Rodrigues que pacientemente orientou Navarro para que o seu trabalho tivesse um caráter mais científico, sobretudo auxiliado pela linguística moderna. O MMTA foi elaborado com base no Curso de Lemos Barbosa. Lembro-me da sua primeira versão, em formato de apostila, encaminhada ao Prof. Rodrigues, desprovida das correções do próprio Lemos Barbosa (1970: 224-228). Navarro, entretanto, não assimilou todos os ensinamentos que lhe foram feitos pelo Prof. Rodrigues.

Ao tratar de tupinismos, p. xiv, Navarro cita “ficar com nhenhenhém, ficar jururu, ir para a cucuia, chorar as pitangas, etc.”. Certos termos e expressões devem ser evitados pelos tupinólogos pois possuem etimologias ainda não esclarecidas: é o caso de “nhenhenhém” e “jururu”. Na mesma página, entre outras palavras, Navarro arrola “pirão”, de origem Tupí ou africana, mais provavelmente Tupí (Houaiss & Villar 2008 [2001]: 2223), que, no MMTA, por equívoco, afirma proceder de “pirá”... (1998: 546). Também no MMTA apresenta “SAPOTI”[5] como tupinismo (1998: 292, 2005: 246), quando o termo nem sequer é de origem Tupí, mas Náuatle (Houaiss & Villar 2008 [2001]: 2518). O cúmulo das falsas etimologias cabe a “Ipanema”, “upá-nema ‘lago fedorento’” da quinta lição do MMTA (1998: 61-62, 2005: 70-71). Segundo Navarro, assim se chamava a lagoa Rodrigo de Freitas (1998: 62), mas a lagoa nunca teve essa denominação. A Vila Ipanema era uma homenagem ao Barão de Ipanema, daí o nome do bairro: o topônimo tem sua origem na região de Sorocaba, Ypanema,[6] já que de lá veio o homenageado.

Nas pp. xx e xxi, a propósito de Antonio Ruiz de Montoya, Navarro diz: “[...] escreveu o Vocabulario y Tesoro de la Lengua Guarani (o más bien, Tupi), como que identificando o guarani ao tupi ou, ao menos, apresentando-lhes as semelhanças.” Fico perplexo porque, como se sabe, “Ó MAS BIEN TUPI” é um acréscimo do editor, Francisco Adolfo de Varnhagen, na edição de 1876 em Viena-Paris (Edelweiss 1947: 6, Ruiz de Montoya 1876 [1639-1640]: i).

Na p. xxiii, Navarro diz que “arma” está no ablativo, e, assim sendo, o “a” final é longo. Acontece que arma, -orum é uma palavra latina da segunda declinação, e não da primeira. Como pluralício que é, o ablativo deve ser armis. No substantivo arma, o a final é breve.

Em “Os falantes do tupi antigo: origem, história e distribuição geográfica no passado”, pp. xxvii-xxxvii, Navarro trata de oito povos indígenas: Tupiniquím, Potiguára, Tupinambá (da Bahia, do Maranhão e do sul), Temiminó, Caeté e Tupí de São Vicente. Apesar de menos conhecidos, seria interessante tratar também dos demais povos falantes do Tupí Antigo na região da costa brasileira (Métraux 1928: 12-19). Ao discorrer sobre os Tupiniquím, p. xxix, Navarro afirma: “Essas referências a tupiniquins em São Vicente permanecem ainda enigmáticas e somente a descoberta de novos documentos históricos poderá lançar luzes sobre essa questão [!].” É mais do que sabido que os Tupí de São Vicente também eram chamados de Tupiniquím[7] (Métraux 1928: 14-15, Edelweiss 1947: 44).

Ao tratar dos Potiguára, p. xxx, Navarro afirma que a História do Brasil de Vicente do Salvador foi publicada em 1627. Tal obra permaneceu inédita até 1889 quando teve a sua primeira edição no volume 13 dos Anais da Biblioteca Nacional (Lacombe 1974: 164-165). Como cultor do vernáculo, Navarro deve corrigir “Baía da Guanabara” para “Baía de Guanabara” (Martins 1997 [1990]: 11, 51 e 340), cinco vezes nas pp. xxxiv e xxxv, quando trata dos Tamôio ou Tupinambá do sul.

Em “As fontes para o conhecimento do tupi antigo”, p. xl, Navarro se equivoca ao comentar o trabalho do Prof. Carlos Drumond para a edição crítica, segunda, do Vocabulário na língua brasílica: “Em 1952, seu sucessor [de Plínio Ayrosa, editor da primeira edição] na Universidade de São Paulo, Carlos Drumond, publicou uma outra cópia daquele cimélio, existente em Portugal.” Na folha de rosto dessa edição do VLB vem “2.a edição revista e confrontada com o Ms. fg., 3144 da Bibl. Nacional de Lisboa. por CARLOS DRUMOND” (1952). O Prof. Drumond não publicou uma outra cópia do VLB, mas revisou a primeira edição e a cotejou com o manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, tendo preparado uma edição com base em mais de uma fonte, edição corrigida, ampliada e aperfeiçoada. Na p. xlii, insiste em ter sido Luís da Grã o primeiro professor de tupi no Colégio da Bahia em 1556. Isto perde a gravidade diante da falta de esclarecimento do processo para a segunda edição do VLB, para a qual muito contribuiu a Profa Maria de Lourdes de Paula Martins (1949).

Na p. liii, Navarro cita as cartas trocadas entre índios Potiguára como fontes do Tupí Antigo. “Felipe” Camarão sobressai entre os chefes, melhor seria Antônio “Filipe” Camarão (Martins 1997 [1990]: 129 e 358), uma vez que Navarro também é formado em grego clássico. Quanto às cartas, é estranho que Navarro não mencione em seus trabalhos dois títulos a elas referentes (Sampaio 1906, Souto Maior, 1912), chegando a considerar inédito trecho de uma delas no MMTA (2005: 178).[8]

“Perfil do tupi antigo” é a seção que se estende da p. lvi à p. lxxix. Como só há duas análises modernas do Tupí Antigo, de Lemos Barbosa e de Aryon Rodrigues,[9] é evidente que essa unidade da tese muito deve a esses autores, particularmente ao Prof. Rodrigues e à sua Estrutura do Tupinambá (1981),[10] trabalho não citado por Navarro ao longo do texto, cita sim a tese de doutorado do Prof. Rodrigues, p. lvi, trabalho inédito, porém em alemão (1959). As considerações pertinentes a essa seção serão feitas ao tratar das “Conclusões” e do “Dicionário”, uma vez que há pontos dela que se repetem nessas duas unidades.

Nas pp. lxxx a xci está a seção “Estrutura, métodos e procedimentos de elaboração e organização do dicionário de tupi antigo”. Acredito ser a unidade mais bem trabalhada das cxi pp. Foi com base nela que Navarro concebeu o seu “Dicionário”. Penso que não há o que levantar no que diz respeito à lexicologia e à lexicografia e, se houver, não invalida o preparo teórico de Navarro nesses domínios científicos. Vale lembrar que fizeram parte da banca examinadora as professoras Maria Aparecida Barbosa e Maria Tereza Camargo Biderman, especialistas que certamente desempenharam os seus papéis com competência. É lamentável, no entanto, que nenhum especialista em Tupí Antigo tenha participado dessa comissão julgadora. Apesar do arcabouço teórico, Navarro não elaborou o seu “Dicionário” conforme os preceitos da ciência e da filologia. Serve de exemplo isto: para fim de abonação, cita Luís Figueira na p. xc, mas o que se lê em Figueira não é o que Navarro transcreve. Figueira escreve: “Anhé [...] Anhéräú [...] Anhéreá [...] Anhéracoreá [...] Anhérëĩ [...] Anhéracoreĩ [...]” (1878 [1687]: 133-134). O é de anhé[11] de Figueira é transcrito com “~” por Navarro, o que não está de acordo com a fonte utilizada. Para justificar o “~”, Navarro deve fazer uso de outra fonte ou passagem (ver texto referente às notas 21, 22 e 23). Exemplos como esses são muito comuns no MMTA e no “Dicionário”.

Em “A documentação histórica: as edições e os manuscritos utilizados”, p. xciii, Navarro deixa de citar Helder Perri Ferreira como tradutor dos Poemas de Anchieta, assumindo para si a tradução da lírica tupi (1997), repetindo o que faz na terceira edição do MMTA (2005: 450). Na primeira edição do MMTA, a tradução desses poemas apresenta-se como trabalho em conjunto (1998: 533). Isto lembra a alteração do título da tese de doutorado, pequena, no entanto inconveniente. Mas aqui o caso é mais grave, chega a ser preocupante.

Nem sempre é possível consultar as melhores edições, porém como não fazer uso da Notícia do Brasil de Gabriel Soares de Sousa, comentada e anotada por Varnhagen, Pirajá da Silva e Edelweiss (1974 [1851])? O Prof. Edelweiss, para essa edição, escreveu um  trabalho indispensável, “Revisão das etimologias tupis”, o melhor que se fez sobre a Notícia (ou Tratado)[12] como fonte do Tupí Antigo (Sousa 1974 [1851]: 439-474).

História do Brasil de Vicente do Salvador, “publicada em 1627” (p. xxx), é aqui tratada como um códice, 49, da coleção Livros do Brasil do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (p. xcv). De nada adianta consultar as melhores fontes se delas não se faz uso adequado. No “Dicionário”, p. 309, no verbete “pa’ama”, Navarro o abona com passagem dos “Poemas brasilicos” de Cristóvão Valente, mas o que se lê em Valente não é o que Navarro transcreve pois Valente escreve “xe nhëéng päâmã” (Catecismo 1898 [1686]: n.p.). Na transcrição de Navarro, o g não está presente, e o a final deixa de ser nasal: “che ñeéng paáma ‘a minha voz confusa’”, na edição de Plínio Ayrosa (1941: pp. 21 e 29), lembra a lição de Navarro “xe nhe’ẽ-pa’am-a”, exceto o g presente e as ausências da oclusiva glotal   que registra Navarro entre os dois ee e os dois aa. Ayrosa afirma: “Paáma é o verbo paã [forma Guaraní], engasgar-se, confundir-se, etc.” (1941: 25.) Acompanho o raciocínio de Navarro que traduz o trecho por “minhas palavras engasgadas”. O estudo de outras línguas da mesma família pode auxiliar: o termo Parintintín “pa’am” ou “ma’am” se traduz por “pregar, ficar preso; obstruir; atrapalhar” (Betts 1981: 158). Isto tudo parece procedente, mas o fato é que, no original, há um g, e o a final é nasal.[13] Num dicionário dessa natureza, a abonação deve reproduzir fielmente o que está na fonte primária.

A unidade intitulada “Conclusões”, pp. c-ciii, parece ser a mais problemática não só pelos seus equívocos, mas também por “conclusões” questionáveis. Navarro assim começa na p. c:

 

“Após muitos anos de pesquisas, em contato com raríssimas edições e manuscritos quinhentistas e seiscentistas, podemos afirmar que lemos e analisamos quase tudo o que existe escrito em tupi antigo. É certo que novos textos poderão ser revelados no futuro. Mas acreditamos que não alargarão consideravelmente o que se conhece agora, com este dicionário, do léxico dessa língua.

Reunimos e organizamos tudo o que estava disperso, disseminado por obras diversas, algumas quase inacessíveis ao grande público e durante sete anos procedemos à organização de uma grande massa de informações que nunca antes haviam sido analisadas. Textos que jaziam mal traduzidos nas páginas dos viajantes e cronistas, textos que não foram até hoje traduzidos e, às vezes, nem sequer publicados, agora são utilizados largamente em nosso dicionário nos exemplos ilustrativos de que nos servimos.”

 

Em “A documentação histórica”, p. xcii, Navarro delimita no tempo as fontes utilizadas, séculos XVI e XVII, “o período histórico em que o tupi antigo foi falado”. Se leu tanto, onde está karaku? São duas as ocorrências em Claude d’Abbeville.[14] Se analisou tudo, por que “karamemûã” (p. 188), e não “caramémo ‘karamemó’”, como está em Léry (1578: 342, apud Nogueira 1876: 12)?[15] Embarcação indígena, “maracatim” é um tupinismo do português do Brasil, cuja pronúncia parece ter sofrido pouca alteração, palavra Tupí, documentada em Pernambuco e no Maranhão, não tem verbete no “Dicionário” pois as fontes são do século XVIII.[16] Na mesma página, Navarro dá prosseguimento:

 

“Com o Dicionário de Tupi Antigo (título de livro que em breve publicaremos) e durante sua feitura pudemos alargar o conhecimento de processos gramaticais daquela língua. Assim, não somente o léxico, mas também a gramática dessa língua ficou mais bem conhecida com este trabalho, donde retiramos informações para descrevê-las pela primeira vez na 3a edição de nosso Método Moderno de Tupi Antigo (Editora Global, São Paulo, 2005), que, assim, muito se beneficiou das descobertas que fizemos durante nossas pesquisas.”

 

Não há dúvida de que a terceira edição do MMTA é uma versão reelaborada, mas como explicar a manutenção de uma nota para suí?: “a posposição suí tem um sentido especial, que até agora não foi estudado: ela pode introduzir uma finalidade negativa, sigificando para não” (1998: 520, 2005: 439). No Curso de Lemos Barbosa, para suí, lê-se “‘para não’: a-só nde repîaka suí: vou para não te ver” (1956: 72). A mesma citação aparece na primeira edição do MMTA, na edição “revista e aperfeiçoada”, Navarro abona a nota com outro exemplo, mas mantém para si o crédito da “descoberta”.

            Ao arrolar as suas conclusões, na mesma página, a propósito de uma de suas descobertas, Navarro começa: “Soubemos da existência do que chamamos ‘gerúndio causal [...]’”. Embora Lemos Barbosa não ensine tal emprego em “Sintaxe do gerúndio” (1956: 168-173), em “Conjugação negativa”, apresenta: “No gerúndio, infinito e conjugação subordinada, a negação dupla é nda – eym- ruã [...]” (1956: 354). Entre os exemplos, o autor do Curso cita “nda gûi-xó-eym-a ruã, a-s-epîak: não porque não fui, eu o vi” (1956: 355). Note-se que o exemplo é da lavra de Lemos Barbosa pois não há abonação com fonte primária. Se não registra o emprego na lição sobre o gerúndio é porque deve ser muito menos frequente, como o próprio Navarro admite no MMTA: “Tal emprego [do gerúndio causal], porém, é mais raro [...]” (2005: 306). Na sua tradução do Catecismo brasílico de Anchieta, o Pe. Armando Cardoso também identifica esse emprego do gerúndio:

 

“1. M Mbaépe Cristãos jekuapába? 1. M Qual é o sinal dos Cristãos? D Santa Cruz. D A Santa Cruz. 2. M Maránamope? 2. M Por quê? D Ipupé omamómo Jandé Jará Jesus Cristo [...] D Porque nela morreu Nosso Senhor Jesus Cristo [...]” (1992 a: 186).

 

O gerúndio causal não é novidade para quem estudou o Curso de Lemos Barbosa nem para quem leu as traduções de Armando Cardoso. Aliás, essa passagem de Anchieta serve de exemplo para Navarro no MMTA ao tratar dos empregos do gerúndio (2005: 159). O Catecismo brasílico de Anchieta só foi divulgado com essa publicação de Armando Cardoso.

 

Fruto de “descoberta”, p. ci, uma outra conclusão que merece esclarecimento diz respeito a “îakatu1 (adv.) – por todo (os, a, as), em todo (os, a, as)”. Acerca do que afirma Navarro:

 

“Nenhum dos tradutores de Anchieta atinara com o seu significado, que somente com este dicionário ficou evidenciado em virtude do cotejo de diferentes textos, donde pôde ressumar o verdadeiro sentido do lexema.”

 

Ao discorrer sobre “Sujeito incorporado”, Lemos Barbosa diz: “O prefixo mo-, do sujeito e verbo incorporados, forma um novo verbo transitivo: mo-ugûy-syryk: fazer escorrer sangue de ou a” (1956: 209). O exemplo que se segue foi tirado do Catecismo de Antônio de Araújo: “s-eté îá-katu-pe gûá i mo-peré’-pereb-i i mo-ugûy-syryk-a? (Ar. 85): chagaram-lhe todo o corpo, fazendo escorrer o seu sangue?” (1956: 209). Armando Cardoso publicou de Anchieta a Lírica portuguesa e tupi, em que também identifica tal significado no poema que começa por “Oré rausubá jepé ‘De nós compadecedor’”: “Oroausúb katú uitekóbo, xe rekobé jakatú [...] Ficando eu a bem te amar, por todo este meu viver [...]” (1984: 158 e 160). Estas lições não tinham sido bem aprendidas por Navarro porque na sua tradução da lírica tupi de Anchieta não se vê tal entendimento: “Oro-aûsu-katu gûi-t-ekóbo, xe r-ekobé îa-katu [...] Estou amando-te muito, como a minha própria vida [...]” (1997: 102). A passagem vem assim no texto original: “Oroauçub catu guitecobo xe recobe yacatu [...]” (Anchieta 1989 [1954]: 93). O que causa perplexidade é Navarro abonar o verbete de îakatu com, entre outras, as passagens de Anchieta e de Araújo, uma traduzida por Lemos Barbosa, a outra, por Armando Cardoso. E de gravidade é o fato de Navarro, para Anchieta, abonar com a “sua” tradução: “Estou amando-te muito, por toda a minha vida” (pp. ci e 132), o que não condiz com o que está na sua publicação. Tal significado de îakatu era conhecido, mas foi apresentado como descoberta, inspirado em tradução de outrem.

Após algumas considerações pertinentes, Navarro, pp. cii-ciii, prosseguindo em suas conclusões, trata da contribuição da sua tese para a etimologia dos tupinismos do português do Brasil:

 

“Nosso dicionário, apresentando etimologias de muitos lexemas, permite um melhor conhecimento do significado das palavras portuguesas de origem tupi, geralmente muito mal explicadas nos dicionários contemporâneos. Nenhum dos dicionaristas do século XX, desde Nascentes até Aurélio Ferreira atinou, por exemplo, com a etimologia do substantivo caipira. A consulta ao dicionário e o conhecimento de certos fenômenos da língua revelam-na: kopir (v. intr.) – lavrar a terra, fazer lavoura, fazer roça; carpir, roçar: A-kopir. – Faço roça. (VLB, II, 19) [...][17] Caipira provém seguramente de kopira, o que carpeo roceiro, do verbo tupi kopir, fazer roça.”

 

Com efeito, a etimologia de muitos tupinismos está por esclarecer, mas a responsabilidade disso não cabe aos professores de português, e sim aos tupinólogos carentes de espírito científico. Quais são esses fenômenos da língua? A respeito de “caipira”, Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário histórico das palavras portuguesas de origem tupi, afirma que “faltam, todavia, os elos da cadeia evolutiva, pois a documentação histórica é tardia” (1982 [1978]: 83). Em Lições de etimologia tupi, o Prof. Edelweis dá a sua contribuição para a etimologia de “caipira”:

 

Caipira – é outro enigma etimológico à espera de solução defensável. [...][18] Sendo, pois, a etimologia de caipira um enigma intrincado, o máximo que se pode fazer é juntar às opiniões anteriores mais outra, que talvez não satisfaça, mas que, pelo menos, não violenta os preceitos gramaticais tupis. Existe no guarani o termo ypy, correspondente ao tupi ypyra – perto de, junto de, parte próxima. Diz Montoya que a mesma palavra se emprega para designar o que trata deo que toma conta de. Se combinarmos ypyra com kaá – teremos kaá-ypyra. Mais provável, entretanto, é que, pelo sentido de caipira o termo proceda de ko-ypyr-ao que cuidao que trata de roçao rústico.  Ko transmudou-se em ka nos termos: capoeira, de kopûera = roça antiga, roça abandonada e capixaba, de kopisaba ou kopixaba = a roça, a roçagem de mato. Nada de extraordinário haveria, pois, em kaypyra, ao invés de ko-ypyra.” (1986: 12-14.)

 

Para uma palavra tida como de origem controvertida (Cunha 1982 [1978]: 83), deve-se admitir que a hipótese de etimologia de “caipira” elaborada pelo Prof. Edelweiss chega a ser original e mesmo plausível: até onde se sabe, é a mais viável das propostas de etimologia para o termo em causa. No “Dicionário” de Navarro, em que se leram e se analisaram todas as fontes disponíveis, não há verbete para ypyra com tal significado. No Confessionário brasílico de Anchieta se encontra “4. Ndeíteé abá [...] sóypýra abaré supé [...] 4. Por isso o homem [...] se aproxima do sacerdote [...]” (1992 b: 77). Nas “Notas” do tradutor, Armando Cardoso, lê-se “4. [...] só-ypýra: ir perto, aproximar-se” (1992 b: 80). A passagem deve ser considerada para o significado de ypyra.

Entre outras conclusões, há uma que, p. ciii, na verdade, nem é uma conclusão, mas um comentário equivocado:

 

“Também poderão beneficiar-se, doravante, os descendentes de grupos indígenas da costa, notadamente os potiguaras da Paraíba, os tupiniquins do Espírito Santo, os pitaguaris do Ceará, com a dilatação do conhecimento do tupi antigo representado por nosso dicionário. Eles são um dos poucos grupos indígenas do Brasil que, tendo perdido seu idioma nativo, teriam condições de recuperá-lo, haja vista o grande conhecimento que hoje temos dele [...] o tupi antigo poderia ainda conhecer algo semelhante ao que ocorreu com o hebraico em Israel.”

 

No seu Curso de tupi antigo, Lemos Barbosa ensina que: “Estudar tupi é investigar a língua que os índios realmente falaram e não excogitar como a falariam hoje. Proceder de outro modo é falar português... com palavras tupis.” (1956: 437.) Acerca da versão do português para o Tupí Antigo, o autor do Curso afirma: “O certo é que essas expressões [exemplos de neologismos], no sentido que se lhes dá, não são tupi. Podem divertir, mas carecem de valor lingüístico.” (1956: 437.) De fato, torna-se preocupante o interesse daqueles que estudam o Tupí Antigo como uma língua viva. Como falar e escrever em Tupí Antigo se não se dispõe de curso, gramática e dicionário atuais e confiáveis para o estudo da língua? E mesmo que houvesse, não seria recomendável estudar Tupí Antigo para falá-lo ou escrevê-lo. O próprio Navarro se corrigiu muitas vezes após a publicação do MMTA, e a terceira edição do seu manual carece de revisão cuidadosa. Navarro contra tudo e contra todos ensina que o radical de “vermelho” é “pyrang” (1998: 27, 2005: 41, 2006: 351), não levando em conta sequer o estudo comparativo da família linguística Tupí-Guaraní, que confirma a forma pirang, ortografia adaptada, há muito tida como legítima (Mello 2000: 188). Penso nos Potiguára da Paraíba que começaram a reaprender a sua língua com a segunda edição do MMTA em 2003 (Índio 2003: 76) e, em 2005, com a terceira edição do MMTA, tenham percebido que muito do que aprenderam não estava correto. Por ocasião da estreia de Hans Staden, o Jornal do Brasil publicou uma reportagem, em que se dava atenção ao fato de o filme ser falado em Tupí Antigo: “‘Em Hans Staden fala-se a verdadeira língua brasileira’, atesta o professor Eduardo Navarro, especializado em tupi-guarani.” (Dia 2000: 1.) Quem assistiu ao filme viu Hans Staden se dirigir à praia exclamando: “Kurusu! Kurusu! Kurusu!” Portuguesismo no Tupí Antigo, kurusá é “cruz”, kurusu é no Guaraní, ybyraîoasaba também traduz a ideia significando “paus cruzados”. Também preocupa o que surge na esteira dos que tratam o Tupí Antigo como uma língua viva. O Sr. Ozias Alves Jr. publicou Parlons nheengatu (2010), em que trata muito do Tupí Antigo nem sempre com felicidade.[19] A partir da publicação do Vocabulário na língua brasílica (1938), a pesquisa e o ensino do Tupí Antigo ganharam profundidade, e, com a segunda edição do VLB (1952-1953), houve necessidade de revisão do que se tinha produzido. Lemos Barbosa tanto tinha consciência das falhas do seu Curso que fez uma longa errata ao seu trabalho mais divulgado, o Pequeno vocabulário tupi-português (1970: 224-228). Apesar disso, o Curso, mesmo envelhecido e desatualizado, continua a ser o que de melhor se fez como manual: curso, gramática, exercícios, textos e vocabulários. A questão é que Lemos Barbosa já não está conosco porque seria interessante uma nova edição do Curso de tupi antigo.

Não há como negar os anos dedicados por Navarro à feitura do seu “Dicionário”. De fato, é o dicionário de maior volume feito sobre o Tupí Antigo ou Tupinambá. Também se deve reconhecer que o léxico e a gramática do Tupí Antigo estão mais acessíveis, dada a extensão do “Dicionário de tupi antigo”. Uma contribuição relevante foi a participação de profissionais de zoologia e de botânica ligados à USP na elaboração de verbetes do “Dicionário”. Não vá alguém pensar, portanto, que, com esta resenha, há a intenção de questionar a aprovação de Navarro no concurso de livre-docência do qual participou. Como o trabalho, porém, poderia ter um caráter mais científico, serão levantados pontos que, se tivessem sido considerados, teriam dado ao “Dicionário” a confiabilidade de que precisa.

Como se trata de um dicionário histórico, o “Dicionário de tupi antigo” deve ter os seus verbetes abonados com reproduções fiéis ao que está nas fontes primárias e secundárias, mas não é o que se encontra. Por que não se orientou pelo Dicionário histórico das palavras potuguesas de origem tupi? Neste Dicionário, a primeira e mais antiga abonação para “cupuaçu” vem assim: “1817 Casal Corografia Brazílica II. 278: Entr’outras fructas mais nomea-se [...] o cupuassú [...]”. Após a abonação feita com a obra de Aires de Casal, há mais três também do século XIX: “copuassú”, de 1833, “copú-assús”, de 1886, e “copús-assús”, de 1888. O verbete se encerra com duas abonações do século XX: “cupuassu”, de 1928, e “cupuassú”, de 1938 (Cunha 1982 [1978]: 121). É assim que se faz um dicionário dessa natureza, um dicionário histórico, como Navarro admite na p. vi:

 

“Algumas das obras daqueles autores foram publicadas ainda no período colonial, outras somente no século XX. Nosso trabalho, nelas fundado, é, assim, de cunho eminentemente filológico, e seu instrumental são textos antigos e não o contato com falantes da língua. Trata-se, portanto, de um dicionário histórico.”

 

Para “kupu’ygûasu ‘cupuaçu’”, o “Dicionário” não traz abonação original nem transcrição moderna, p. 208, com citação de d’Abbeville, mas o que se lê no original é “COPOUIH OUÄSSOU – arbre” (1975 [1614]: 172). Para “kupu’y’aîuba (lit., cupiúba do fruto amarelo)”, também não há abonação original nem transcrição moderna, p. 208, com citação também de d’Abbeville, em que se lê “COPOUIH AIOUP – arbre” (1975 [1614]: 172). Aproveitando a obra de d’Abbeville como fonte para citação, podem-se também arrolar, entre outros, “murisi ‘murici’”, p. 275, mas o original dá “MORECY” (1975 [1614]: 174]), “îunypaba ‘jenipapo’”, p. 171, “IUNIPAP” (1975 [1614]: 169). Tratando-se de um dicionário histórico, são inconcebíveis falsas etimologias como, entre outras, “itagûasu” por itãgûasu na p. 166: “lit., pedra grande) (s.) – mexilhão d’água doce (o maior) (VLB, II, 37)”. Itãgûasu significa “concha grande”: itã + gûasu, e não itá + gûasuMboîgûasu é “cobra-veado”, tradução literal, mboî + gûasu = sygûasu (Edelweiss 1969 b: 39-40). “Sucuri ou cobra-de-veado”[20] está no verbete “mboîgûasu1 (lit., cobra grande)”, p. 231, etimologia equivocada pois “cobra grande” é mboîusu (mboî + usu). O grande problema é que, no “Dicionário”, as abonações originais, quando existem, são transcritas com ortografia atualizada. O DHPPOT de Cunha (1982 [1978]) apresenta falhas, porém elas são compensadas com documentação fidedigna, daí o mérito da obra. Pode parecer exagero, mas não é, todos os verbetes do “Dicionário” devem ser revistos para que sejam refeitos com abonações originais. Na p. 17 vem o segundo verbete para “Aîurûasu”: “Aîurûasu2 (lit., papagaio grande) (s. antrop.) – nome de um índio (D’Abbeville, Histoire, 184)”. Na fonte para a abonação, o que se lê é: “AIOUROU-OUASSOU” – Principal... c’est à dire le grand Perroquet.” (1975 [1614]: 143.) O verbete deve ser corrigido para: “Aîuruûasu2 (lit., papagaio grande) (s. antrop.) – nome de um chefe tupinambá do Maranhão (D’Abbeville, Histoire, 184)”. Navarro usa a edição de 1614, daí a diferença de paginação. “Aîurûasu” é inadmissível, a transcrição correta é AîuruûasuAîurugûasu no padrão da língua. Por falar em correção, Navarro, zeloso do português, dedicado ao latim e ao grego clássico, deve preferir “fleuma” a “fleugma” (Houaiss & Villar 2008 [2001]): 1356), p. 82, em “ekombegûé (lit., modo de ser lento)”. Na p. 148 está o verbete: “îemopyrang (v. intr.) – pintar-se de vermelho, avermelhar-se: Moraseîa é i katu, îegûaka, îemopyranga... – A dança é que é boa, enfeitar-se, pintar-se de vermelho. (Anch., Teatro, 6)”. No texto original, o que vem é: “Moraçeyae ycatu yeguaca, yemopirãga [...]” (Anchieta 1989 [1954]: 138). O verbete corrigido é: “îemopirang (v. intr.) – pintar-se de vermelho, avermelhar-se: Moraseîa é i katu, îeguaka, îemopiranga... A dança é que é boa, enfeitar-se, pintar-se de vermelho (Anchieta 1989 [1954]: 138)”. Isto no caso de haver transcrição atualizada com base na edição da Prof. Paula Martins porque a de Navarro, por ele citada, é falha nessa passagem.

Lemos Barbosa ensina: “Πe nh às vezes se permutam. Junto de nasal é preferido nh [...]” (1956: 36): nh é um alofone usado em tal contexto. Linguisticamente tratando, o que se espera é nhõ, e não nhó, daí o e tilado para anhé, mas a fonte não pode ser alterada em função disso. A reprodução ou a transcrição devem ser fiéis ao original, o que não se vê no “Dicionário”. O e aparece tilado, entre outros, nestes exemplos de Figueira: “nhé”[21] (1878 [1687]: 144), “ranhé”[22] (1878 [1687]: 144), respectivamente nas pp. 286 e 357. Na gramática de Anchieta se lê “ndénhóumê ejucâ, não o mates tu sô” (1990 [1595]: 22v). Tanto o o de nhó[23] quanto o e de umé[24] estão tilados na p. 410 do “Dicionário”. Quanto a “nhõ”, é o que se espera junto de nasal, mas aqui não tem apoio na fonte. O é e o ó são muitas vezes tilados no “Dicionário”, como no caso de umé, e, na p. 28, vem “amõ” por “amó”,[25] este no Catecismo brasílico de Anchieta (1992 a: 163). Manó ou manõ[26] são ambos usuais, mas o original deve ser mantido. Na p. 218 do “Dicionário” se lê “manõ”, mas em Figueira vem “manó” (1878 [1687]: 69). Falando de linguística, embora o trabalho seja de cunho filológico, não se pode abrir mão dela, como para esta entrada: “ãûa (pron.) – ele (es, a, as) (VLB, I, 109); esse (es, a, as); aquele (es, a, as), isso, aquilo (principalmente no plural)”. A abonação do VLB não traz transcrição. Há uma do Confessionário de Anchieta e outra da gramática de Figueira, as três na p. 64. No VLB se lê:  “Aoã [...] Aõaae [...] Aõa [...]” (1952: 109). “Aõa” se encontra em Figueira (1878 [1687]: 81). Na edição para Anchieta vem “aú ã”[27] (1992 b: 102). Os professores Edelweiss e Aryon Rodrigues, especialistas na família linguística Tupí-Guaraní, reconstituem esse termo por “aûã” (Edelweiss 1969 a: 145) e “awã” (Rodrigues 1981: 17). No Parintintín, há para “essa” “agûá”, adaptação do original “agwa” (Betts 1981: 24). Deve-se ler a bibliografia sobre o Tupí Antigo para elucidar também questões de natureza filológica. O verbete que se segue vem na p. 302: “oî (interj.) – oi! (respondendo a chamado): – Aîmbiré! – Oî! – Xe pysyrõ îepé! – Aimbirê! – Oi! – Ajuda-me tu! (Anch., Teatro, 48)”. Lemos Barbosa escreveu “O auto de São Lourenço”, mas parece que os tradutores de Anchieta não leram ou não concordaram com o comentário feito a respeito dessa passagem:

 

“Quando Saravaia relata o que fez para induzir aqueles índios numa cilada, o Anjo já não suporta. Deante da confissão espontânea e cínica, amarra Saravaia para mandá-lo ao fogo eterno. Saravaia grita por socorro a Aimbiré: 554. [–] Aimbire. [–] Aimbiré! [555.] Aimbiré: – Oi11 [...] – Úi! [...] 11 A interjeição não está arrolada nas artes e dicionários, mas o seu sentido é óbvio.” (1950: 216.)

 

“Ui!” porque ambos os demônios agora se encontravam presos. Aimbirê tinha sido preso com Guaixará pelos santos (v. 476). Aimbirê não estava em melhor condição do que Saravaia e já tinha expressado a sua dor (v. 482). A razão parece caber a Lemos Barbosa pois, no Tesoro de Ruiz de Montoya, encontra-se: “Oî (Dize la muger que se duele), Ay.” (1876 [1639]: 256.) No verbete “îur/ur(a) (t, t) (v. intr. irreg.)” [...] “2) fórmula de saudação para o que chega: Ere-îu-pe? – Pá, a-îur. – Vieste? – Sim, vim. (Léry, Histoire, 341)”, p. 172 do “Dicionário”, “a-îur” não está como a fonte que traz “aiout ‘a-îut’” (Léry 1578: 341, apud Nogueira 1876: 10, Barbosa 1942: 308, Edelweiss 1969 a: 97).[28] Numa das conclusões da tese, p. cii, lê-se: “Também de grande valia será o Dicionário de tupi antigo para o melhor conhecimento das variantes dialetais da língua da costa do Brasil nos primórdios de sua história.” Assim como karamemóaîut, entre outros, sem análise para descrever o falar dos Tamôio ou Tupinambá do sul. Muitos verbetes merecem revisão, de que são exemplos “agûarakynhusu” e “petymamanimbyra”, respectivamente nas pp. 11 e 319. O segundo é “petymamanimbyra (s.) – fumaça que se inala ao se fumar (VLB, I, 144)”:

 

“O Vlb. evita registrar práticas pagãs; traz, entretanto, o nome do charuto – pety-mamanë[m]byra, no verbete fumaça que se bebe. A tradução literal do termo é tabaco enrolado. Gabriel Soares traz a descrição do charuto indígena no cap. 61 da II. parte.” (Edelweiss 1972: 71.)

 

Para Edelweiss, “-ë-” = “-y-”, portanto, o verbete revisto é “petymamanymbyra (s.) – charuto (VLB, I, 144)”. “Agûarakynhusu” também deve ser revisto com base em estudo do tupinólogo gaúcho, radicado na Bahia:

 

A forma ‘asú’ em Piso e Marcgrave [Grafia de Piso e Marcgrave] aguaracuinha-acu [Forma tupi em nossa grafia fonêmica] – agûará-kyynh-usú [Tradução portuguêsa] – erva moura (25) [...] (25) Há inversão de letras nesta palavra, de que a maioria dos compendiadores não se dá conta: aguara-ciunha-acu está por aguara-cuinha-acu, mais exatamente, agûará-kuynha-asú por agûará-kyynh-usú, que êste último é a forma correta em tupi. A tradução literal é pimenta grande do guará (= cachorro do mato ou lôbo). Inácio de Menezes (Flora da Bahia) vê sinonímia em aguaraquiunha açu (sic!) e crista-de-galo. O Vlb. traduz agûará-kyynha por erva-moura. A forma aumentativa correta é agûará-kyynh-usú.” (Edelweiss 1970: 80.)

 

O verbete “agûarakynhusu (s.) – aguaraquiá-açu, fedegoso, provavelmente uma borraginácea da subfamília das heliotrópias, talvez o Heliophytum indicum De Cand. (Piso, De Med. Bras., IV, 198)” tem entrada por corrigir.

Muito cuidado deve ser tomado ao lidar com fontes subsidiárias pois corre-se o risco de tratar um tupinismo como vocábulo do Tupí Antigo. Na p. 132 do “Dicionário” está o verbete “îakûasu (lit., jacu grande) (s.) – jacu-açu [...] (Sousa, Trat. Descr., 230)”. “Îakûasu” não pode ser porque o correto é îakugûasu: o termo de Sousa já traz consigo o sinal da evolução do Tupí Antigo para a Língua Geral, devendo ter a sua entrada corrigida. Continuando com os tupinismos, p. 122, vem “guti (s.) – o mesmo que gûeti [oiti] (v.) (Sousa, Trad. Descr., 194)”: “guti” é um tupinismo pois não pode ser palavra do Tupí Antigo, o que torna a entrada desnecessária. No DHPPOT de Cunha, todas as abonações de “oiti” são de fontes subsidiárias, admitindo-se o étimo “gûiti”, transcrição do que vem nesse Dicionário histórico (1982 [1978]: 221). No “Dicionário” de Navarro, arrolam-se os vocábulos originados de “gûeti” (4, p. 121) e de “gûiti” (5, pp. 121-122). Na p. 70 do “Dicionário” se lê “bakori (s.) – bacuri, planta da família das gutíferas (Silveira, Relação do Maranhão, fl. 11v)”. Também com abonação em fontes subsidiárias, o étimo que se defende é “ybakuri”, transcrição do original (Cunha 1982 [1978]: 68). A fonte usada por Navarro para “bakori” está entre as de Cunha. Em d’Abbeville vem o que se segue: “PACOURY – arbre. – ...Son  fruict est gros comme deux poings qui a la peau espesse d’une demi poulce [...]” (1975 [1614]: 171-172). Para “pakury”, Navarro tem o verbete: “pakury (s.) – bacuri, bacurizeiro, árvore frutífera muito grossa e alta, da família das gutiferáceas (Platonia insignis, Mart.) [...] (D’Abbeville, Histoire, 222)”. É a mesma árvore frutífera de que trata Cunha. Se d’Abbeville estiver certo,[29] por que as duas entradas? Não é “bakori” um tupinismo? Segundo d’Abbeville, no Tupinambá do Maranhão, o nome é pakuri, árvore típica da região amazonense. “Abá-pe?” é verbete na p. 6, mas por que razão? se há remissão dispensável para “abá? ‘quem?’”.

Navarro afirma, p. vi, sobre a extensão do seu “Dicionário” após dizer que o tupi antigo “é a língua indígena brasileira mais bem conhecida”:

 

“[...] atingimos nele quase oito mil palavras-entradas, superando de longe, nesse aspecto, todas as outras produções lexicográficas congêneres, mesmo o Tesoro de la Lengua Guarani de Antonio Roiz de Montoya e o Dictionnaire Wayãpi-Français, de Françoise Grenand, que ultrapassam cinco mil entradas.” [Não se pode comparar a obra de Navarro com a de Ruiz de Montoya! Este passou décadas entre os Guarani, e suas obras até hoje são referências, aquele concebeu um manual que, anos depois de seu lançamento, mostra-se falto de acabamento.]

 

Se o Tupí Antigo é tão conhecido, por que se contam nos dedos das mãos os tupinólogos do século XX? Por que só houve duas gramáticas publicadas no período colonial? Por que a obra poética de Anchieta só foi traduzida no século XX? E houve o que rever nas traduções. Por que o Catecismo dos jesuítas (1686 [1618]) até hoje não foi teve tradução publicada? Por que o Vocabulário dos jesuítas só foi publicado no século XX (1952-1953 [1938])? A cultura brasileira faz triste figura nesse quesito diante do Paraguai, do Peru e do México. O País inteiro fala de uma língua tupi-guarani, ignorando as diferenças entre o Tupí Antigo e o Guaraní Antigo, misturando-os com o Nheengatú e o Guarani Moderno ou Paraguaio, fato comum até no meio acadêmico, tema que já foi tratado exaustivamente por vários tupinólogos no passado e no presente. Até a p. 186 do “Dicionário”, 42 % das 436 pp., há cerca de 650 zoônimos e fitônimos, 35 antropônimos e 15 gentílicos.[30] Há fortes indícios de entradas desnecessárias, e o “Dicionário” carece de revisão, o que pode diminuir o número de entradas. O que são “quase oito mil”? já que Navarro por vezes não é preciso. Muitos dos zoônimos e fitônimos são de origem Tupí, mas as fontes respeitantes são subsidiárias, trata-se, pois, de tupinismos. Se não há fonte primária que os abone, não devem ser arrolados num dicionário de Tupí Antigo. Quanto aos gentílicos, Alfred Métraux enumera quinze tribos falantes do Tupí Antigo, de que se conhecem nome e localização na costa brasileira e vizinhanças (1928: 12-19).[31] Das quinze tribos, Navarro tem verbetes no seu “Dicionário” para treze, não incluindo “Ararape” (Cardim 1980  [1925]: 103, Métraux 1928: 14) e “Guaracaio” ou “Itati” (Cardim 1980 [1925]: 102, Métraux 1928: 19). Vizinhos dos Potiguára, os Viatã são contemplados com dois verbetes na p. 408:

 

“u’iatã1 (lit., farinha dura) (s.) – nome de grupo indígena que vivia no século XVI próximo dos potiguaras da costa nordestina (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 121)

U’iatã2 (lit., farinha dura) (s. etnon.) – nome de antiga nação indígena da Paraíba (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 121)”[32]

 

Navarro dá entradas para tribos não falantes do Tupí Antigo, deixa de mencionar “Ararape” e “Itati” e faz dois verbetes para “Viatã”. Note-se que “u’iatã ‘farinha dura’” tem abonação na p. 407 em “u’i ‘farinha’”. Na p. 31 vem “amoypyra (s. etnon.) – (nome de nação indígena (Vasconcelos, Crônicas (Not.), I, § 151, 110)”, que também deve ser levado em conta para para ypyra:

 

Amoipira. – A palavra é composta de amó = outro, outra, da outra, e ybyra = margem, com possível influência de ypyra = parte próxima. Como se vê no texto, o gentílico proveio do nome do maioral da tribo. Chamou-se, portanto, O(s) da outra margem.” (Edelweiss 1974: 473-474.)

 

O verbete “ka’aeté2 (lit., mata verdadeira)” é seguido de outro, p. 177, “ka’aeté3 (lit., mata verdadeira) (s. etnon.) – caeté, nome de antiga nação indígena da costa (Cardim, Trat. Terra e Gente do Brasil, 122)”. As formas para o gentílico são “Caité” e “Caaété” (Cardim: 1980 [1925]: 102, Métraux 1928: 13). Para o Prof. Edelweiss, a variante “caité” é a mais procedente:

 

“O gentílico caité deve ser uma alcunha aplicada a esses índios tupis por seus vizinhos, ou é o nome de um antigo tubixaba, que passou à tribo. Parece composto de caí, uma casta de macacos de pernas e rosto comprido, mais eté = genuínoverdadeiro.” (1974: 444.)

 

Aproveitando a citação desse trabalho do Prof. Edelweiss, é bom ler livros, artigos e outras publicações e até trabalhos inéditos como teses para que o estudo tenha mais profundidade. Leiam-se os dois verbetes nas pp. 397 e 436 do “Dicionário”: “tororõma (s. onomat.) – jorro, borbotão: ‘y-tororõma – jorro d’água, bica d’água (VLB, I, 55)” e “‘ytororõma (lit., jorro d’água) (s.) – bica d’água (VLB, I, 55)”. Segundo lição do Prof. Edelweiss, o primeiro deve ser revisto, e o segundo, corrigido, “jorro d’água” para “água rumorejante”: “Em tupi tororoma > tororõ é rumorrumorejante e y-tororõ = rumor de água correnterio murmuroso [“Tororam” em Sousa 1974 [1851]: 326]. É formação onomatopaica.” (1974: 448.) O termo Parintintín que verte “roncar” se pronuncia “tororõe”, adaptação para o português (Betts 1981: 189). Ao Prof. Edelweiss cabe a razão, mas, para manter o verbete de “tororõma”, é preciso aboná-lo com fonte primária. Finalizando com a amostragem de pontos a rever e a corrigir, também é bom ler os trabalhos de Alfred Métraux, Estêvão Pinto, Florestan Fernandes, Cristina Pompa, Adone Agnolin, entre outros, para evitar uma visão estereotipada do índio Tupinambá, já que as tribos Tupinambá foram mais bem descritas e estudadas. O Pequeno vocabulário tupi-português de Lemos Barbosa traz “caraimonhanga – ceremônia de santidade; tr. fazer ceremônias de santidade” (1967 [1951]: 45), e o Curso, “caraí-monhanga2 [...] 2 – ceremônias de ‘santidade’” (1956: 356-357). No “Dicionário”, p. 188, há os verbetes “karaimonhang (v. intr.) – fazer feitiços” e “karaimonhanga (s.) – feitiço, magia, pajelança”: pelo menos há “pajelança” entre as opções para a tradução.

Os meus primeiros trabalhos foram Vitrúvio e a formação do arquiteto (1991) e Introdução ao tupi (1994). Vitrúvio e a formação do arquiteto têm vinte anos e uma longa errata (corrigendadelenda e addenda),[33] e Introdução ao tupi, trabalho de divulgação, foi escrito com base em bibliografia recomendável, mas carente de análise linguística moderna. Revisão de um compêndio de tupi antigo ficou inédito durante quinze anos (2009), tendo sido revisto pelo Prof. Aryon Rodrigues, e agora eu faria uma alteração de fonte, mas não de conteúdo. Todo trabalho pode e deve ser melhorado, porém, tratando-se de Tupí Antigo, isso é mais do que necessário pois boa parte das fontes primárias apresenta ortografia deficiente. Por isso solicitei a Navarro que não publicasse o seu manual antes do tempo, pois se ele o fizesse, teria que refundir o trabalho posteriormente. Mas ele o publicou, e houve a necessidade de reelaborar o MMTA (2005 [1998]), ainda carente de revisão. Como se não bastasse, Navarro deu aos estudos tupis uma orientação equivocada, tratando o Tupí Antigo como uma língua viva, dispondo-se a ensiná-lo aos Potiguára e a outros remanescentes dos antigos Tupí ou Tupinambá. Nas duas primeiras edições do MMTA, vem nos “Agradecimentos”:

 

“Ao Prof. Dr. Aryon dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, com quem mais aprendi sobre a Língua Brasílica e que, com mão de mestre, guiou-me pelos caminhos de seu estudo. Se este livro tiver méritos, eles são todos seus.” (1999 [1998]: n.p.)

 

Na mesma página também se lê: “Ao Prof. Dr. Eduardo Tuffani, da Universidade de Brasília, por suas judiciosas observações e críticas, que muito me ajudaram.” Os agradecimentos não estão presentes na última edição. Não posso falar pelo Prof. Aryon Rodrigues, mas de minha parte afirmo que a apostila revisada não é exatamente o livro publicado nem poderia sê-lo pois há erros crassos que permanecem na terceira edição. Também afirmo que não recomendei a publicação do manual na ocasião porque eu esperava de Navarro um amadurecimento no que toca à questão da problemática do Tupí Antigo ou Tupinambá. Termino a redação deste texto em 11 de março de 2011, desejando que sirva para os interessados refletirem sobre a língua e o seu estudo.[34]

 

P.S.:  Tinha eu também a intenção de fazer uma outra resenha sobre a obra Repositório da língua brasílica do advogado Elvan Loureiro (2009). Esse trabalho, no entanto, é um dicionário de Tupí Antigo, Tupi Médio e Tupi Moderno (2009: iv e vi), elaborado com base em fontes secundárias (iv). Seguidor de Navarro, Elvan Loureiro, porém, não faz uso da terceira edição do MMTA nem do “Dicionário de tupi antigo”. Trata Lemos Barbosa e Frederico Edelweiss em pé de igualdade com outros autores (iv). Em sua longa bibliografia, pp. 578-601, há casos de duplas referências bibliográficas, entre outras, para a primeira edição de Léry (588) e para Poesias de Anchieta, por Paula Martins (579), entrada em Anchieta, e 589, entrada em “Manuscrito” [!]). Também cita o livro que Navarro teria publicado pela Vozes, o que a Editora negou ter feito. São flagrantes as entradas desnecessárias e a falta de cuidado na elaboração dos verbetes: abona “jakatú” com tradução de Armando Cardoso como se fosse de Paula Martins (190). Entre outras abonações equivocadas, há a de “karamemuã” feita com base no MMTA (234). Existem casos de falsas etimologias como, entre outras, para “tororõma” (527) e “mboiguasú” (281). Apesar de ser também um dicionário de Tupi Médio, não faz verbete para marakatĩ, mas o faz para “kurusú” (256). Não há entrada para . Elvan Loureiro parece não ter se dado conta de que “ãua” (Barbosa 1970: 225) e “AÛÔ (Navarro 1998: 19) são a mesma coisa pois faz entradas distintas para o vocábulo (75). O dicionário que se estende por 578 pp. apresenta mais problemas do que o de Navarro já que se fez tendo por fontes obras por vezes não confiáveis: há duas entradas para “vermelho”, “piránga” e “pyránga” (432 e 468).

 

Referências bibliográficas

 

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[1] Professor Associado do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense: etuffani@vm.uff.br

[2] Navarro, Eduardo de Almeida. 2001. Dicionário de tupi antigo: a língua brasílica de nossas origens. Petrópolis: Vozes. A Editora afirmou nunca ter publicado tal livro. Na “Bibliografia” da tese, p. cviii, Navarro apresenta esse título como trabalho inédito! Durante muito tempo figurou no Currículo de Navarro como livro publicado (2009).

[3] ______. 2009. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global. É assim que vem atualmente no Currículo de Navarro (2011). Isto tudo é desconcertante porque, ao ser indagado sobre o livro, sou obrigado a dizer que ele ainda não saiu e que se encontra no prelo há quase uma década.

[4] Apesar de ser uma tese, e não um livro, não faço uso de “folha”, mas de “página”.

[5] Entre aspas vêm os termos com as suas grafias originais de acordo com as edições citadas.

[6] “IPANEMA corr. Y-panema, a água ruim, imprestável; o rio sem peixe, ou ruim para a pesca. São Paulo. Alt. Ipané.” (Sampaio 1987 [1901]: 251.) Por motivo de questão didática, estou empregando, com adaptações, menos uso do hífen e inserção de -y-, a ortografia adotada por Lemos Barbosa no Curso de tupi antigo (1956).

[7] Não mantive as minúsculas e o plural para os gentílicos apesar de assim terem feito Navarro e autores de outras fontes secundárias.

[8] Embora as traduções de Teodoro Sampaio deixem a desejar, o fato é que ele transcreveu, nem sempre com acerto, os originais das cartas a Pedro Poti de Diogo Pinheiro Camarão (21-10-1645) e de Diogo da Costa (17?-10-1645). O trecho “inédito” aparece no fecho da primeira (Sampaio 1906: 289). O excerto não é inédito, mas imperfeita foi a transcrição desses documentos.

[9] Se o Prof. Rodrigues é o maior linguista do Tupí Antigo, para ele Tupinambá de preferência, o Prof. Edelweiss foi o maior filólogo pois conhecia como ninguém as fontes para o estudo do Tupí Antigo. É claro que ele tinha uma análise da língua, mas não a divulgou em trabalho de forma sistematizada, ficando os seus ensinamentos dispersos em longa e válida bibliografia. Mesmo não sendo linguista, lia tudo que dizia respeito à família linguística Tupí-Guaraní, chegando por vezes às mesmas conclusões de linguistas que empregaram o método histórico-comparativo.

[10] Esta obra foi recentemente publicada. Como não tive acesso ao trabalho, mantive a referência do título inédito para não fazer uma transcrição de uma obra não consultada efetivamente.

[11] “Uerdade, ou uerdade ser. – Anhê. Aiê.” (VLB 1953: 144.) “Anhê” tilado por Navarro no mesmo verbete, justamente na subseção “O registro das variedades da língua” (pp. lxxxix-xc).

[12] Tratado descritivo do Brasil em 1587, como aparece em outras edições.

[13] Lemos Barbosa afirma: “A apócope é menos taxativa, se as duas consoantes são heterogânicas: [...] nheeng + porang = nheeng-porang ou nheẽ’-porang: falar bonito” (1956: 37-38).

[14] “CARACOU – boisson” (1975 [1614]: 180) e: “KARACOU – vin doux... faict de racines de Manioch-caue.” (1975 [1614]: 238.) Para a espécie de gado “caracu”, consultar Teodoro Sampaio (1987 [1901]: 216).

[15] “Léry grafa caramemô e, como tal, encontramos em alguns vocabulários do tupi costeiro. Mais corrente, porém, é karamemoã [karamemuã], cesto, baú, caixa arqueada etc. No guarani é de mais uso a variante karamenguá (P[línio] A[yrosa]).” (Léry 1980 [1878]: 133.) As notas tupinológicas de Ayrosa não são das mais felizes, mas aqui ele foi mais fiel ao texto original.

[16] “[...] não pode haver dúvida quanto ao seu uso, mesmo entre os tupis da Bahia. Jaboatão [1761] se refere aos maracatins, no vol. I. pp. 154-55. Aos navios, entretanto, os tupis do Centro e do Sul davam o nome de ygar-usú – canoa grande [...]” (Edelweiss 1971: 39). A obra de Jaboatão é o Novo orbe seráfico, citada pelo Prof. Edelweiss ao tratar dos aumentativos do Dicionário português e brasiliano, de 1795, no caso, para “maracatim oçú ‘navio’”. O termo é Tupí porque foi empregado pelos Potiguára de Itamaracá e pelos falantes da Língua Geral do Pará e do Maranhão, oriunda do Tupinambá do Maranhão: “E porque, nas que faziaõ sobre a agoa nesta Ilha [Itamaracá] nas suas Canoas, costumavaõ pôr na proa destas hum espigaõ de ferro, ou páo muy forte para abalroar as outras, ao qual chamavaõ Tim, no seu idioma, e neste penduravaõ alguns daqueles seus Maracás, mayores, e faziaõ mais estrondo, a esta Canoa assim armada, chamavaõ Maracá tim [...]” (Jaboatam 1858 [1761]: 154-155).

[17] [...] se refere a verbetes de derivados tupis de kopir.

[18] [...] diz respeito a outra etimologia aventada para “caipira”. Navarro não cita esse trabalho do Prof. Edelweiss em sua “Bibliografia”.

[19] O jornalista Ozias Alves Jr. é um homem culto, inteligente, interessado e dedicado, mas não é um especialista em Tupí Antigo: seguindo Navarro (1998: 546), afirma que “pirão vient de pirá (poisson) et ão” (2010: 17), escreve “ybira  piranga” por ybyrapytanga “pau-brasil” cinco vezes (32-33), arrola Aimoré e Tremembé entre as principais tribos Tupí (38), diz que a carta de Diogo Pinheiro Camarão a Pedro Poti é “la seule lettre écrite par un Indien en tupi ancien” (116), afirma que o Tupí Antigo foi falado até o século XVIII de forma predominante (11 e 62), tendo desaparecido no século XIX (13, 64 e 72), mas admite que o Nheengatú surgiu no século XVIII (71), chama o Nheengatú de Língua Brasílica (11), o que cabe ao Tupí Antigo, diz que um falante do Tupí Moderno é capaz de ler um texto do Tupí Antigo (103), abre espaço para o Tupí Antigo como uma língua viva (23-26 e 78), etc. Com exceção de Batista Caetano de Almeida Nogueira, os tupinólogos do século XIX e das primeiras décadas do século XX se dedicaram ao Nheengatú, e não ao Tupí Antigo. Mesmo Teodoro Sampaio confundiu o Tupí Antigo com o Nheengatú, sendo a sua obra O tupi na geografia nacional de consulta obrigatória mais pela documentação pesquisada: “Confesso que só com grande difficuldade consegui entender o tupi em que foram escriptas as duas primeiras cartas [dos Camarões], as unicas em que logrei fazer alguma cousa na restauração e traducção do texto. As restantes estão ainda para mim indecifraveis; são verdadeiros enigmas.” (Sampaio 1906: 281.) O fato de conhecer o Tupí Moderno não facilitou na compreensão de textos do Tupí Antigo: “Nesse assumpto de traducção – e do tupy... é ser demasiado querer talvez outra coisa além do sentido... S. Jeronymo contentou-se em verter assim o livro de Judith. Os autores pios não se atêm á letra, como os philologos.” [Afrânio Peixoto.] (Primeiras 1923: 18.)

[20] Existe outra serpente que também é chamada “cobra-de-veado”.

[21] “Ociosamente, ou sem porq. – Nhê. Nhenhê. Tenhe. Tenhenhe.” (VLB 1953: 54.)

[22] “Ndaéiranhê, negatiuo, Ainda não, sempre o ranhê, alem do gerundio [...]” (Anchieta 1990 [1595]: 56).

[23] “Somente. aduerb. – Nho. Nhonhe. Nhotenhe. Nhote.” (VLB 1953: 121.)

[24] “O Imperatiuo [...] No fim do negatiuo tem, vmê [...] (Anchieta 1990 [1595]: 22-22v).

[25] “Algum, ou algua. – Amô. Amoaê.” (VLB 1952: 31.)

[26] “Morrer. – Amanô.” (VLB 1953: 42.)

[27] Para Armando Cardoso: “9. ‘Aú témo mbaé aíba mã, aé moném xe reõu, aú ã suí!’ 9. ‘Oxalá eu comesse veneno e feito fétido morresse, por comer isso!’” Na transcrição de Navarro: “A-’u temõ mba’eaíba mã a’emo nhẽ xe r-e’õû ãûa suí.  Ah, quem me dera comer veneno para que eu morresse disso.” Navarro transcreve, mas deixa de traduzir “aé moném”, para ele “a’emo nhẽ”.

[28] “As palavras que em outros autores aparecem com a terminação r [...], figuram, normalmente, em Léry, terminadas em t. Esse fenômeno, sempre facultativo no tupi [...], assume o aspecto de regra geral no Colóquio [...]” (Barbosa 1942: 308). “R final se permuta por t (pron. comum dos tamoios; entre as outras tribos, elegante mas rara): [...] a-îur = a-îut: vim [...]” (Barbosa 1956: 41).

[29] Que fique bem claro, no caso de d’Abbeville estar certo, pois “paquori”, de 1631, é abonação em Cunha (1982 [1978]: 68). Para “oiti” e “bacuri”, Teodoro Sampaio admite os étimos “Ui-ti” e “Ybá-cury” ou “ybá-curi”(1987 [1901]: 338 e 203). Gûiti na língua padrão, “ûiti” para “oiti” vem em d’Abbeville: “OUYTY – arbre” (1975 [1614]: 175). A forma “gûeti” não está de acordo com d’Abbeville, podendo ser talvez um tupinismo. A mesma fonte dá “Pakuriyba”: “PACOURY-EUUE – village... qui signifie l’arbre de Pacoury.” (1975 [1614]: 144.) No Tembé e no Guaraní Moderno, há também a forma de d’Abbeville: “Bacuri; pakuri – pakuri (G).” (Boudin 1978: 43.) No Guaraní Moderno, o termo é o mesmo, mas a árvore se trata do abieiro. Para “bacuri” e “bacurizeiro”, no Urubú-Kaapór, existem “pakuri” e “pakuri’y” (Kakumasu & Kakumasu 1988: 61 e 62). Pelo que se vê, o étimo deve ser mesmo pakuri.

[30] Os números estão aproximados para menos.

[31] Para “Apigapigtanga” e  “Muriapigtanga”, confrontar Métraux (1928: 19) com Fernão Cardim (1980 [1925]: 102).

[32] “Perto destes [Potyguaras] vivia multidão de gentio que chamão Viatã, destes já não ha nenhuns, porque sendo elles amigos dos Potyguaras [...] e parentes os Portuguezes os fizerão entre si inimigos [...]” (Cardim 1980 [1925]: 102).

[33] Sujeitos a outra errata também estão os Estudos vitruvianos (1993), da tese originados, trabalho desfavorecido por editoração descuidada.

[34] Em 3 de março de 2012, o texto foi revisto com base em sugestões de um parecerista externo, sugestões nem todas por mim acatadas. Até essa data, o “Dicionário” ainda não tinha sido publicado. Acredito que a resenha tem sua razão de ser pois a obra analisada tem sido consultada e citada por estudiosos de Tupi Antigo, tornando-se uma obra de referência, apesar de suas limitações e falhas manifestas. Após o ingresso de Navarro em Etnolinguistica, o “Dicionário de tupi antigo” já não figurava em seu Currículo como livro publicado. Esclareço que consulto currículos para me atualizar, e não para acompanhar simplesmente a produtividade de outros professores.